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As Escamas Do Abismo

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[ Fonte ] Sobre uma frágil ponte se mira um amanhecer onde, como se a noite jamais fosse voltar, atiramos todos o coração à profundidade dorida do mar. As ondas vertem além do areal dos afectos que ficaram por sentir e entregar, e, na sua imensidão, erguem-se até às montanhas mais gélidas do nosso arrependimento, deixando como poema de peregrinação um abandono de estátuas que petrificaram todos os momentos, aqueles datados a um quase sentir que muitos consideram felicidade ou ainda vão teimando viver. Não há resto de tudo que em nós pouco já faça, pois, vendemos os nossos ossos com a ânsia de ali um dia aprender a dançar. Não é que a melodia não seja bela, nem os passos contados, mas parece que alguém não nos ensinou a caminhar. E como querem eles que caminhemos? Se vendemos os nossos ossos e todas as nossas articulações? Quem somos nós neste crescimento intrínseco e indivisível da carne para além de um monte de nada com sonhos esfomeados de tudo mas que, no fundo...

A Revisão da Consciência do Inferno

Quem és tu além das vestes pretas? Perguntam-me, por entre ironias de quem não procura respostas, como se o meu sorriso quebrado fosse sumiço infestado pela névoa dos estilhaços de todas as memórias profundas. As mais queridas, mas as que, inevitavelmente, acabaram de escapar por pontas dos meus dedos amputados. Uma merda , senhor . Aprendi a dizer. E digo-o na arte de o exclamar e na convicção de o tornar, em honra ao único andor que marcha pela rua mais estreita da minha alma, a minha própria avenida principal, aquela onde sou um mero aspirante. Um mendigo sem passadeira de uma razão distante que, na frieza da multidão de rostos incompletos, rebaixa-se aos bicos de pés para tentar uma altura em que até uma merda ser se faz na maneira mais plena que poderia o exclamar: Uma valente merda. Expressão fixa, bem, essa reservo-a às estátuas e figuras que, sob o privilégio das flores à altura da cabeça de quem as carrega, e o cheiro a quem e por quem as venera, crava-me pela reza de todas...

O Eclipse Total Da Saudade

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The Crow (1994) ... Pelo nosso advento crescente, e pelas sombras profundas que nos protegem. Não faço destas palavras um feitiço, como se feita de feitiço a nossa existência pudesse ser, pois, o que sem busca de rosto se procura, nos une atrás das paredes altas dos nossos sonhos descobertos. A noite atrasará-se mais uma vez, e, nessa fraca pontualidade, a luz adormeceu de mãos dadas na escuridão. Com ela, o clarão estremecido da nossa paixão, diluiu-se pelas esquinas deste céu estrelado, como se, elevado às vertigens do que sinto por ti, todas as partículas dos nossos desejos fossem agitadas pela descoberta da nossa ânsia de brilhar. Relembrando, ainda que coberto pelos ventos sombrios de todas as noites que estão por vir, que somos, ainda, a clandestinidade que alberga toda a vergonha das estrelas por entre murmúrios de quem ainda fica para apreciar o luar. Consegues ver a minha mão estendida a eclipsar este sentir? Eu sei que podia-mos, facilmente, lhes escoar do olhar to...

A Tirania da Demência

A saudade tornou-se numa velha e rasgada tempestade que naufraga o presente numa ilha perdida algures a sul da minha imaginação. Ela dança pelas ondas como se as marés fossem a alvorada do tempo, velho, cansado e apaixonado pelo fim, e ali, no maior desequilibro da sua vida,  faz do seu ultimo suspiro uma vertente no egoísmo de contar as gotas sob o meu pensamento. Sou apenas mais um perdido naquela ilha ilha de dementes. Olho-a na distancia como se os meus pés já não fossem cimento daquela areia. Derivo sobre mim como se os movimentos fossem a sedução dos amores perdidos, aqueles uivados pelo mar, enquanto engole a terra firme que segura todo o tipo de resto de desejo que cavalga as mais altas ondas de mim sem obediência de voar. Deixando, a meus olhos, uma espécie de destroços por reclamar de todas as vitimas que a tirania um dia lhes sorriu. Esta é a marcha que se ergue aos dentes quebrados de uma serpente! Ela, sem cabeça, marcha pelo submerso eu, e nas suas ruas mais ...

A Estranha Ressureição do Luar

A vida é um longo traçado onde, todas as marcas do que ficou por dizer, fazem-se permanência na consciência substituta da voz em falta. Somos um pequeno complexo sem dono à espera que a deriva nos traga as certezas de um azul espelhado nos céus. Mas será que sabemos apreciar a terra? Esperei por ti tantos anos que fiquei pedra de tudo o que sentia.  Aprendi que todo o tempo não é suficiente para te fazer tempo, nesta vida, que mediocremente me foi erguendo e, a tuas mãos, tive a honra de conhecer o andar ao mais alto de mim. Sabes? Vivo com a incerteza no fundo da garganta, pois sinto todas as minhas palavras compostas como uma estranha sinfonia para ti. Danço-te, e danço-te até me caírem os pés, à melodia do maestro sem rosto cujas pernas atravessam oceanos apenas para sentirem as ondas do teu amor. Elas balançam sobre os meus sentimentos como se sentir fosse o mais belo naufrágio sepultado em mim. Mas há um pequeno bilhete escrito ao delaço das ondas onde o teu rosto es...

#1: A Raínha do Gelo

Sob o manto branco te ergues como se de mim a pureza maior pudesse, em tuas mãos, ser extraída para fazer to teu horizonte os lençóis das noites mais frias que sentes a minha falta. Sinto-te, ali no vazio de ti e despida de mim, na imensidão do nevoeiro como se o teu toque fosse uma lembrança perdida de criança.  Relembro-me, no mais alto de mim da casa, perdida no meio de nada, da fogueira intermitente e do abraço de quem partiu e não existe mais sequer. Era criança apenas, mas eu sei-o como o adulto que um dia a largou pela mão numa estrada sem sinais, onde só aí senti que a vida sobre isso verdadeiramente pudesse encontrar um começo genuíno. Ao gelo da tua coroa O silêncio abalroou a vila onde todos se limitavam a existir. A rotina mórbida estremeceu todas as ruínas, os meios anjos de pedra de todos os que partiram em corpo, e alguns já em pensamento, e de todos, por todos, relembrou-me que todos eles espalham-se pela calçada como se cada paralelo nosso foss...

Devaneios I

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Do talento ao alento, ofusco a chama que treme em mim. Sou um pedacinho de nada ardente que, em tuas mãos, se fez tudo ofuscante. Estico os dedos à medida dos meus sonhos e nunca à medida de mim.   Sou dormência dos teus sonhos. A coerência do teu sorriso. Sou um sonho suspenso na maior fogueira das nossas vidas. Queima-me, meu amor. Sem medos de existir. Sou teu nesta leveza que voa para onde nunca me senti ser de ninguém. Conquistaste-me o meu frágil sorriso de ser. Em ti, em mim e em nós, mais do que nunca, descobri a minha verdadeira casa.