O Eclipse Total Da Saudade

The Crow (1994)

... Pelo nosso advento crescente, e pelas sombras profundas que nos protegem. Não faço destas palavras um feitiço, como se feita de feitiço a nossa existência pudesse ser, pois, o que sem busca de rosto se procura, nos une atrás das paredes altas dos nossos sonhos descobertos.


A noite atrasará-se mais uma vez, e, nessa fraca pontualidade, a luz adormeceu de mãos dadas na escuridão. Com ela, o clarão estremecido da nossa paixão, diluiu-se pelas esquinas deste céu estrelado, como se, elevado às vertigens do que sinto por ti, todas as partículas dos nossos desejos fossem agitadas pela descoberta da nossa ânsia de brilhar. Relembrando, ainda que coberto pelos ventos sombrios de todas as noites que estão por vir, que somos, ainda, a clandestinidade que alberga toda a vergonha das estrelas por entre murmúrios de quem ainda fica para apreciar o luar.
Consegues ver a minha mão estendida a eclipsar este sentir?

Eu sei que podia-mos, facilmente, lhes escoar do olhar todos os nossos argumentos. Mesmo aqueles que se evaporam antes de serem presentes ao pensar sem nunca encontrarem o rumo do entender.
Sei também que, na leveza dos nossos sentimentos, somos um longo beijo roubado, furtivo, que fez da noite escura seus lençóis sem julgamento. Estrelados e dançantes ao som de um vento que embala o berço onde todas as estrelas que ficaram por se virar, em honra aos que os nossos céus sepultados e, na obediência na tirania de brilhar destes, se entregam às manhãs que muitos se esquecerão de acordar. 

De pés frios mendigo-te sem nome, pois fiz questão de o vender para o teu mais facilmente reencontrar, nesta noite que deixei-te embrulhadas todas as estrelas que conheço à tua janela. A casa de te ter é demasiado alta para te poder olhar.
Não temas a altura na minha procura, pois, sigo-te verdadeiramente na profundidade como se todas as ruas fossem uma busca sem qualquer destino por ti. Encontro-te a cada esquina, a cada travessa e o meu coração eclipsa a minha alma para te relembrar.
E relembra-me sempre para te relembrar a não olhares para as sombras sem retirares as divisões das luzes que nos cegam, pois a mais bela memória de ti não é o sol que me esquenta, nem a lua que me acalma. São todos os sorrisos que se pintam quando encostamos os nossos rostos, aqueles que florescem mesmo na maior escuridão dos nossos sonhos, e iluminam a certeza que és o poema que enfeitiçou a minha realidade.


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