A Revisão da Consciência do Inferno

Quem és tu além das vestes pretas?
Perguntam-me, por entre ironias de quem não procura respostas, como se o meu sorriso quebrado fosse sumiço infestado pela névoa dos estilhaços de todas as memórias profundas. As mais queridas, mas as que, inevitavelmente, acabaram de escapar por pontas dos meus dedos amputados.
Uma merda, senhor. Aprendi a dizer. E digo-o na arte de o exclamar e na convicção de o tornar, em honra ao único andor que marcha pela rua mais estreita da minha alma, a minha própria avenida principal, aquela onde sou um mero aspirante. Um mendigo sem passadeira de uma razão distante que, na frieza da multidão de rostos incompletos, rebaixa-se aos bicos de pés para tentar uma altura em que até uma merda ser se faz na maneira mais plena que poderia o exclamar: Uma valente merda.
Expressão fixa, bem, essa reservo-a às estátuas e figuras que, sob o privilégio das flores à altura da cabeça de quem as carrega, e o cheiro a quem e por quem as venera, crava-me pela reza de todas as línguas que desconheço unidas numa só prece. Reconheço-lhes os sofrimentos mas não entendo o que querem mais dizer.

Que adianta embalar conformismos se nada do que nos conforma é capaz de nos ensinar a viver? Será que, na pior das hipóteses, somos a melhor das hipóteses que poderia ter existido? Ou, para quê sermos luxo de gabanço quando a nossa própria organização nos deixou órfãos de tempos doces alimentados em abundância sob pratos belos? Aqueles que são acompanhados pelos mais requintados talheres, num sonho onde o primeiro acto é ver por um espelho fraudulento a nossa própria língua cortada?
Matam a fome de todos os sonhos de uma vez, mas insistem na espera numa sobremesa que que as nossas bocas não são capazes de saborear. Porque insistem em chamar a isso viver?
Contra fome, e pela abundância do que me esqueci, também aprendi que não são as lâminas que nos mutilam. São as palavras que carregamos tatuadas no esmalte partido dos dentes, aquelas que ficam por dizer, mas caem à terra e na sua esterilidade sepultam esperanças.

Mas quem sou eu além das vestes pretas?

Eu aceito a lida e respondo como se já tivesse chegado ao andar mais alto do meu próprio entendimento:
Sou apenas um pedaço de ninguém com todos os rostos cravados, sou um assalto sem nada para roubar e sou, nesse mesmo roubo, todos os reféns da minha existência de pés atados, colocados simetricamente e de mãos livres para que, todo o medo da vida que lhes vai escorregando à luz da mira de um revolver de mil canos e única bala, seja força para lhes relembrar a união.
Sou desertor, procurado por todos e nem achado por mim mesmo, que usa o coração como escudo e tem todas as marcas do lado de dentro que o protege. Os batimentos gastam-se por dentro.
Sou crime de sentimentos selvagens mas sou, mais que nunca, a prisão até dos criminosos maiores que a minha sombra algum dia encurralou: os sonhos que guardo nos bolsos das calças que foram para lavar. 

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