#1: A Raínha do Gelo

Sob o manto branco te ergues como se de mim a pureza maior pudesse, em tuas mãos, ser extraída para fazer to teu horizonte os lençóis das noites mais frias que sentes a minha falta. Sinto-te, ali no vazio de ti e despida de mim, na imensidão do nevoeiro como se o teu toque fosse uma lembrança perdida de criança. 
Relembro-me, no mais alto de mim da casa, perdida no meio de nada, da fogueira intermitente e do abraço de quem partiu e não existe mais sequer. Era criança apenas, mas eu sei-o como o adulto que um dia a largou pela mão numa estrada sem sinais, onde só aí senti que a vida sobre isso verdadeiramente pudesse encontrar um começo genuíno.



Ao gelo da tua coroa

O silêncio abalroou a vila onde todos se limitavam a existir. A rotina mórbida estremeceu todas as ruínas, os meios anjos de pedra de todos os que partiram em corpo, e alguns já em pensamento, e de todos, por todos, relembrou-me que todos eles espalham-se pela calçada como se cada paralelo nosso fosse uma memória para ser enquadrada, calcada e esquecida num aperto entre a terra e o fundo dos pés descalços e sujos que por nelas caminham.
É uma vila triste, sombria, onde sonhar não é permitido. Viver é exigido pelas autoridades como uma obrigatoriedade de ser e a morte um medo suspenso que se sepultou na maior das cruzes da igreja de todos os tormentos.
Temem pela terra quando o teu sorriso se espalha pelo horizonte. Pobres camponeses, cujo pão é apenas um entretenimento de uma fome de tudo que o nada nunca foi capaz de lhes dar.
Chamam-te facilmente de amaldiçoada, como se a morte fosse um mal de quem a suas mãos não poderia ter mais destino a escolher.
Foi uma escolha acertada, no fim das contas. Até porque a fome da vida é um mero aperitivo que torna o regalo da morte num prato principal. Tememos horizontes suspensos, é certo, mas a sua magia está nas memórias do que está para vir e na sua capacidade, mesmo antes de acontecer, de nos relembrarem que a finidade do tempo é uma estranha relembrança de viver o agora num estado eterno e puro.
Eles temem-te. Eu? Sou eterno debaixo da tua aura gélida, do teu sorriso silencioso.


Aos silêncios das tuas florestas

Do vazio trazes a vida entre laços belos que decoram o meu coração. És parte de mim sem nunca teres me tido antes, porque em ti, sobre ti, e no mais belo reflexo de mim sempre exististe.
Abandonei a vida à volta de todos eles, amaldiçoados pelo destino, para ser a peste que se exila entre vultos das árvores que se recusam a morrer deitadas.
Aprendi imenso com elas, com a tranquilidade que o mais belo silêncio me pode dar.
Sou um reflexo do medo que neguei. Sou uma vontade natural de tudo o que sempre senti.



Ao Coração-Sibéria

O fundo não se faz de superficialidades. Nunca se fez. Até porque nas profundezas da neve há magma a brilhar.
O meu asilo são os teus braços. As tuas palavras mesmo quando não dizes nada.
Porque neste manto imenso de ti, até o eco do nada me torna sombra de tudo.
Brilha, amor dos meus dias, paixão das minhas noites, e eternidade dos meus sonhos. Brilha apenas ao ritmo de ti, ao som dançante dos teus flocos que teimam em cair.
No sou fogo de Verão que teima em queimar o teu Inverno.
Sou fogo que congela à espera de um simples teu olhar.


 

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