As Escamas Do Abismo
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Sobre uma frágil ponte se mira um amanhecer onde, como se a noite jamais fosse voltar, atiramos todos o coração à profundidade dorida do mar.
As ondas vertem além do areal dos afectos que ficaram por sentir e entregar, e, na sua imensidão, erguem-se até às montanhas mais gélidas do nosso arrependimento, deixando como poema de peregrinação um abandono de estátuas que petrificaram todos os momentos, aqueles datados a um quase sentir que muitos consideram felicidade ou ainda vão teimando viver.
Não há resto de tudo que em nós pouco já faça, pois, vendemos os nossos ossos com a ânsia de ali um dia aprender a dançar. Não é que a melodia não seja bela, nem os passos contados, mas parece que alguém não nos ensinou a caminhar.
E como querem eles que caminhemos? Se vendemos os nossos ossos e todas as nossas articulações?
Quem somos nós neste crescimento intrínseco e indivisível da carne para além de um monte de nada com sonhos esfomeados de tudo mas que, no fundo, é-se incapaz de mover?
Uma tirania em forma de meta! O destino pinta-se no horizonte com os amargos e sabores de viver, sentir, mas nunca alcançar.
Construímos pontes então! Pois os muros são, e permitam-me a redundância, a nova novidade dos cretinos!
Se cada um tivesse a seu entendimento um pequeno troço real de si, talvez, um dia, pudéssemos ter pé no fundo dos maiores medos alheios, nas vidas encarceradas pelo viver e na travessia dos egos amargos cimentados no abismo de existir.
Não me vou vangloriar, pois a minha é apenas uma ponte de ossos roubados que ficou suspensa no nada, atada por pontas de belos cabelos que asfixiaram todos os meus desejos enquanto estes, moribundos, estremeciam ao som do vento com a brisa da morte a regurgitar. Poderia-lhe chamar uma travessia sem fim mas o fim de uns é o começo para outros.
Somos dois idiotas que se cruzaram ali no meio.
Dois estranhos idiotas que deram a mão mesmo quando acenávamos para horizontes diferentes.
Pontas opostas.
Um nó mal feito de uma ponta oposta.
Peço desculpa por esta falta de ar, mas, entrego o meu corpo ao vazio com a convicção de não me recordar, por um segundo que seja, de algum dia me terem perguntado se queria, por simples e calmo dia, existir. Muito menos quando a minha garganta sabe a milhões de escamas que perderam a pele ao passar na minha boca.
Não há em mim um único sorriso quebrado em que as serpentes não sobem pelas vontades que me restam e morrem muito antes de me alcançar. No fundo, sabemos onde mora o veneno.
Brindemos, à minha toxicidade, batendo com os crânios dos réis.
A minha alma serve-se fria.

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